Vozes / Pioneiras
Pesquisadoras, ativistas e pensadoras que trouxeram a violência para o centro da saúde e dos direitos no Brasil. Cada citação traz a obra de onde foi tirada.
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A violência não é uma, é múltipla.
01 / Citações
Palavras que mudaram a forma de ver, de cuidar e de enfrentar a violência.
“O poder apresenta duas faces: a da potência e a da impotência.”
Heleieth SaffiotiGênero, patriarcado, violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004. “Quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência.”
Marilena ChauíParticipando do debate sobre mulher e violência. In: Perspectivas antropológicas da mulher, v. 4. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. “Violência dói e não é direito.”
Lilia Blima SchraiberTítulo do livro de Lilia Blima Schraiber, Ana Flávia P. L. d'Oliveira, Márcia Thereza Couto Falcão e Wagner dos Santos Figueiredo. São Paulo: Editora Unesp, 2005. “A vida começa quando a violência termina.”
Maria da Penha Maia FernandesFrase que se tornou seu bordão, segundo perfil publicado na revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea), em 2013. Ver fonte “Essa violência sexual colonial é, também, o 'cimento' de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades.”
Sueli CarneiroEnegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. In: Racismos contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano, 2003. Ver fonte “(...) o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nesse sentido, veremos que sua articulação com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular.”
Lélia GonzalezRacismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984. “Todas as causas externas são previsíveis e preveníveis.”
Maria Helena Prado de Mello JorgeDeclaração à Agência USP de Notícias. Ver fonte “Não aperto.”
Nise da SilveiraSua resposta ao ser instruída a acionar um aparelho de eletrochoque, nos anos 1940. A frase está hoje no hall de entrada do Museu de Imagens do Inconsciente.
02 / Quem abriu o caminho
Pesquisa, militância e cuidado: trajetórias que fizeram da violência uma questão de saúde e de direitos no Brasil.
Maria Cecília de Souza Minayo
Socióloga e antropóloga, pesquisadora da Fiocruz
Esteve à frente da criação, em 1988, do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde (Claves), na Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. É uma das pioneiras em tratar a violência como questão de saúde pública no Brasil, e as pesquisas do Claves apoiaram políticas como a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências.
Heleieth Saffioti
Socióloga e professora universitária (1934–2010)
Referência dos estudos feministas no Brasil desde A mulher na sociedade de classes, tese defendida no fim dos anos 1960. Analisou a violência de gênero como expressão do patriarcado e cunhou a ideia de síndrome do pequeno poder para explicar o abuso de adultos sobre crianças.
Marilena Chauí
Filósofa, professora da Universidade de São Paulo
No ensaio Participando do debate sobre mulher e violência, de 1985, propôs uma definição que se tornou referência nos estudos brasileiros de gênero, infância e saúde: a violência transforma diferenças em desigualdades hierárquicas e trata o ser humano como coisa, e não como sujeito.
Lilia Blima Schraiber
Médica, professora da Faculdade de Medicina da USP
Com Ana Flávia d'Oliveira, liderou a etapa brasileira do Estudo Multipaíses da Organização Mundial da Saúde sobre Saúde da Mulher e Violência Doméstica, realizada em São Paulo e na Zona da Mata de Pernambuco. Seus trabalhos mostraram como a violência chega aos serviços de saúde e como as equipes podem reconhecê-la.
Ana Flávia Pires Lucas d'Oliveira
Médica, professora da Faculdade de Medicina da USP
Pesquisa a violência de gênero e o cuidado na atenção primária à saúde. Liderou com Lilia Schraiber a etapa brasileira do estudo da OMS sobre violência doméstica e é coautora de Violência dói e não é direito (2005).
Suely Ferreira Deslandes
Pesquisadora da Fiocruz
Em 1994 publicou pelo Claves o manual Prevenir a violência: um desafio para profissionais de saúde, que orientou serviços a identificar, notificar e cuidar de crianças e adolescentes em situação de violência logo depois de o Estatuto da Criança e do Adolescente tornar obrigatória a comunicação de maus-tratos.
Maria Amélia Azevedo e Viviane N. de Azevedo Guerra
Pesquisadoras da violência doméstica contra crianças e adolescentes
Organizaram Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder (1989), obra que ajudou a tirar da invisibilidade a violência doméstica contra crianças e adolescentes no Brasil e a diferenciar a vitimação, produzida pela desigualdade social, da vitimização nas relações entre adultos e crianças.
Maria da Penha Maia Fernandes
Farmacêutica bioquímica e ativista
Sobreviveu a duas tentativas de assassinato cometidas pelo então marido em 1983, que a deixaram paraplégica. Levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que em 2001 responsabilizou o Brasil por negligência e omissão. Sua luta deu origem à Lei 11.340/2006, que leva seu nome. Contou sua história no livro Sobrevivi... posso contar (1994).
Sueli Carneiro
Filósofa, cofundadora do Geledés Instituto da Mulher Negra
Uma das principais vozes do feminismo negro no Brasil. Ajudou a fundar o Geledés em 1988 e mostrou que racismo e sexismo se combinam na violência que atinge as mulheres negras, defendendo enegrecer o feminismo e as políticas públicas.
Lélia Gonzalez
Antropóloga, filósofa e intelectual do movimento negro (1935–1994)
Cofundadora do Movimento Negro Unificado, em 1978, formulou a categoria de amefricanidade e analisou como racismo e sexismo se articulam na cultura brasileira, produzindo efeitos violentos sobre a mulher negra.
Maria Helena Prado de Mello Jorge
Epidemiologista, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP
Defendeu em 1979 a tese Mortalidade por causas violentas no município de São Paulo, marco dos estudos sobre mortes por acidentes e violências no país. Dedicou décadas a qualificar as estatísticas de mortalidade e a mostrar o peso das causas externas na saúde de crianças e jovens.
Nise da Silveira
Psiquiatra (1905–1999)
No Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, recusou o eletrochoque, o coma insulínico e a lobotomia e criou ateliês de pintura e modelagem como forma de cuidado. Fundou em 1952 o Museu de Imagens do Inconsciente. Sua obra antecipou a luta contra a violência institucional na saúde mental.
03 / Um espaço vivo
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